O SOCORRO PRECISA CHEGAR
O SOCORRO PRECISA CHEGAR Alguns fatos me chocam muito e não consigo arrancá-los de meu pensamento. Hoje soube de uma história assim em Mariana, cidade onde nasci e cresci; cidade que faz parte da minha alma: Um jovem de 16 anos, largado pela namorada, por vingança, atirou no braço da moça às 11 horas de um dia e no mesmo dia às 23:30 atirou e matou um rapaz (também de 16 anos) que suspeitava estar namorando sua ex. O rapaz atingido voltava da escola e estava a caminho de casa, ficou caído no chão, chamaram o SAMU e alguém correu na casa do pai, que chegou antes do socorro, a tempo de ouvir o filho implorar: - Liga para o SAMU pai, eu não quero morrer... - Já ligamos... - Liga de novo, eu não quero morrer... Ligaram, mas o socorro não chegou a tempo. O rapaz sangrou até a morte. Acharam que era trote. Duas questões me atormentam a alma: 1 – Por que ele atirou na ex-namorada pela manhã e ainda estava solto e armado à noite para cometer esse assassinato brutal? 2 – Por que o socorro (de emergência), numa cidade tão pequena, não chegou a tempo??? Essa revolta não cabe em mim, me extrapola. Ela cresce ainda mais quando penso naquele diálogo do filho com o pai. E quando penso: “Meu Deus do Céu, ele morreu! Ele não queria morrer, implorou por isso, mas morreu...” penso no pai que ouviu essa súplica, na família recebendo a notícia e não consigo aceitar. É um problema público que atinge toda a cidade, é uma falha clara em duas instâncias de primeira necessidade: Segurança e Saúde. Não é possível que um criminoso (ou alguém desequilibrado) tenha tempo de cometer duas agressões em espaço de tempo tão grande, sem que alguma atitude seja tomada e, por outro lado, não é possível que o socorro seja solicitado e que esse pedido tenha que ser repetido muitas vezes, para que eles tenham certeza de que não é um trote. Se o rapaz tivesse sido preso após o tiro na ex-namorada, o outro ainda estaria vivo, indo e voltando para a aula, soltando pipas, vivendo... Se o socorro tivesse atendido a primeira chamada, maiores as chances do jovem ter sobrevivido, estancado o sangue do ferimento e as dores da família. São só suposições, eu não tenho certezas, ninguém as tem. Pode ser que com o funcionamento perfeito desses setores, mesmo assim, uma desgraça o tivesse abatido, mas, ao menos assim, todos se sentiriam mais acolhidos. As dores não seriam menores, mas a certeza de que tudo que poderia ser feito, foi, daria outro nome para a revolta que se instala em nosso coração. É preciso gritar por essa ajuda, antes seja tarde demais para ela compreender que precisa escutar. O socorro precisa chegar.
Adélia Carvalho
Escrito por Adélia Carvalho às 00h57
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