Das Montanhas
DAS MONTANHAS Dispunha as mãos em concha ao redor dos lábios entreabertos, provocava o movimento da laringe e o som escorria pelos ares: - Olá a a a.............. A resposta vinha como um eco da montanha vizinha: - Olá a a a ... O dia havia começado. Muitos anos viviam tão próximos e tão distantes. Cada qual protegido e isolado em um espaço próprio. Quando queriam se comunicar, subiam em sua “pedra grande” frente ao casebre, no ponto mais alto da montanha em que moravam. Eram extremamente necessários um ao outro, mas, com a distância defendiam-se do isolamento que a proximidade diária poderia impor um dia. Não questionavam a situação. Decidiram: - Vamos? - Vamos. Seguiram, então, cada um para a sua montanha e lá viviam desapropriados das obrigações cotidianas em relação ao outro. Um dia, porém, o eco fez-se suspenso: - Olá a a a .... Até o vento parecia quietado para ouvir o silêncio. - Olá a a a ... Nunca, em todos aqueles anos, precisara chamar pela segunda vez: - Olá a a a.... Ele poderia, simplesmente, estar dormindo um pouco mais, não e? - Olá a a a.... Olhou a sua volta indecisa, desceu da pedra e voltou para dentro do casebre. Tentou em vão seguir com os afazeres diários. Lembrava o silêncio do eco e o vazio parecia entrar por todos os orifícios do seu corpo entupindo, sufocando, angustiando... Sentou-se à beira da cama ainda morna e ficou olhando o silêncio. - E se não respondesse nunca mais? - Esse pensamento causou-lhe calafrios. - E se estivesse morto? – Essa idéia ocorreu-lhe num misto de desespero e contentamento: - Ao menos não teria deixado de responder... Assustou-se com a leveza que essa idéia lhe provocava. Levantou-se, calçou sapatos fechados e seguiu em direção às respostas. No caminho não pensava nada. Suava, arfava, debatia-se nas limitações do seu corpo. Descera sua montanha e agora subiria a outra. Esse pensamento fez-lhe imaginar como seria o casebre dele, suas coisas, seus hábitos diários. Será que ainda a reconheceria? Horas depois chegava aliviada e ofegante ao alto daquela montanha. As horas mortas ofuscavam-lhe a visão permitindo distinguir apenas um vulto recostado ao portal do casebre. Aproximou-se lentamente. Ele, que tinha o olhar distante, virou-se para ela sem sobressalto. Ela sem entender: - Chamei, não escutou? Ele balançou a cabeça afirmativamente olhando-a nos olhos. Ela ainda sem compreender. Num repente abraçaram-se com carinho. E o carinho virou desejo, o desejo virou sexo. Encontraram no corpo um do outro as respostas que lhes faltavam. Fizeram muito, falaram pouco. Quase nada. A noite passou. Durara menos que desejavam e mais do que suportavam. Quando ele acordou, ela já não estava. Pulou da cama à janela avistando a pedra vazia. Não estava lá. Correu até a pedra sem se vestir, o vento da manhã recém nascida cortava seu rosto, dava-lhe arrepios. - olá a a a... Mantinha-se de pé. Ouvidos esticados para acolher a resposta. - Onde ela poderia ter ido?Voltara à sua montanha, com certeza... Lembrava todas as coisas que queria ter-lhe dito nesse encontro. Mas quando a viu o silêncio parecia mais poderoso que qualquer palavra. Falaram com os corpos, os suores, os gemidos...as palavras ficaram tão pequenas diante de tudo que se calaram. - Olá a a a... Chamou mais uma vez. Talvez ela não tivesse escutado, exausta da caminhada, da noite... - Mas por que foi embora assim? Talvez agora fosse a vez dele atravessar as montanhas para ir ao encontro dela. E já vislumbrava a sua silhueta na soleira da porta, olhar ao longe, esperando a sua chegada. Reencontraria ali, nas horas mortas, o desvario dela, o corpo em chamas, alma flutuando, boca aberta, seios para os dentes, ventre pedindo, ar que vem do fundo da existência. - Olá a a a... Mas e se ela não estivesse lá? Desceu da pedra. Entrou em seu casebre. Olhou o quarto. O cheiro dela estava impregnado lá. Vestiu a roupa que encontrou na frente. Acendeu o fogão, pegou um cigarro que estava abandonado em um canto. -Hoje preciso cortar mais lenha. Não iria atrás de respostas. As incertezas eram mais suportáveis que a confirmação do abandono. Adélia Carvalho
Escrito por Adélia Carvalho às 15h34
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