Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 Blog do Walmir
 Bolg das Medéias
 Fabricio Carpinejar - Poeta
 Blog do Ruy
 Blog da Lu
 Bolg do Kleber
 Blog da Dayane
 Blog do Renato
 Blog da Laísa
 Blog da Leísa
 Blog Tiene
 Blog Ruy Teatro
 Blog da Aryanne
 Blog do Ju
 Blog cinéfilo
 Blog do Kilder
 Blog da Cândida
 Blog do Renatto
 Blog da Andréa
 Blog da Sara
 Blog do Furreca
 blog da Lana Liu
 Blog Rato do subsolo
 Blog do Domingos
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Escola de teatro PUC Minas
 Blog do Davi
 Blog do Pedro
 Blog da Flavinha
 Blog do Hudson
 Blog da Laís
 Blog da Larissa




BLOG ADÉLIA CARVALHO
 


Das Montanhas

DAS MONTANHAS

 

 

Dispunha as mãos em concha ao redor dos lábios entreabertos, provocava o movimento da laringe e o som escorria pelos ares:

- Olá a a a..............

A resposta vinha como um eco da montanha vizinha:

- Olá a a a ...

O dia havia começado.

Muitos anos viviam tão próximos e tão distantes. Cada qual protegido e  isolado em um espaço próprio. Quando queriam se comunicar, subiam em sua “pedra grande” frente ao casebre, no ponto mais alto da montanha em que moravam.

Eram extremamente necessários um ao outro, mas, com a distância defendiam-se do isolamento que a proximidade diária poderia impor um dia.

Não questionavam a situação. Decidiram:

- Vamos?

- Vamos.

Seguiram, então, cada um para a sua montanha e lá viviam desapropriados das obrigações cotidianas em relação ao outro.

Um dia, porém, o eco fez-se suspenso:

- Olá a a a ....

Até o vento parecia quietado para ouvir o silêncio.

- Olá a a a ...

Nunca, em todos aqueles anos, precisara chamar pela segunda vez:

- Olá a a a....

Ele poderia, simplesmente, estar dormindo um pouco mais, não e?

- Olá a a a....

Olhou a sua volta indecisa, desceu da pedra e voltou para dentro do casebre. Tentou em vão seguir com os afazeres diários. Lembrava o silêncio do eco e o vazio parecia entrar por todos os orifícios do seu corpo entupindo, sufocando, angustiando...

Sentou-se à beira da cama ainda morna e ficou olhando o silêncio.

- E se não respondesse nunca mais? - Esse pensamento causou-lhe calafrios.

- E se estivesse morto? – Essa idéia ocorreu-lhe num misto de desespero e contentamento: - Ao menos não teria deixado de responder...

Assustou-se com a leveza que essa idéia lhe provocava. Levantou-se, calçou sapatos fechados e seguiu em direção às respostas.

No caminho não pensava nada. Suava, arfava, debatia-se nas limitações do seu corpo.

Descera sua montanha e agora subiria a outra. Esse pensamento fez-lhe imaginar como seria o casebre dele, suas coisas, seus hábitos diários. Será que ainda a reconheceria?

Horas depois chegava aliviada e ofegante ao alto daquela montanha. As horas mortas ofuscavam-lhe a visão permitindo distinguir apenas um vulto recostado ao portal do casebre. Aproximou-se lentamente. Ele, que tinha o olhar distante, virou-se para ela sem sobressalto. Ela sem entender:

- Chamei, não escutou?

Ele balançou a cabeça afirmativamente olhando-a nos olhos. Ela ainda sem compreender.

Num repente abraçaram-se com carinho. E o carinho virou desejo, o desejo virou sexo.

Encontraram no corpo um do outro as respostas que lhes faltavam.

Fizeram muito, falaram pouco. Quase nada.

A noite passou. Durara menos que desejavam e mais do que suportavam.

Quando ele acordou, ela já não estava. Pulou da cama à janela avistando a pedra vazia. Não estava lá.

Correu até a pedra sem se vestir, o vento da manhã recém nascida cortava seu rosto,  dava-lhe arrepios.

- olá a a a...

Mantinha-se de pé. Ouvidos esticados para acolher a resposta.

- Onde ela poderia ter ido?Voltara à sua montanha, com certeza...

Lembrava todas as coisas que queria ter-lhe dito nesse encontro. Mas quando a viu o silêncio parecia mais poderoso que qualquer palavra. Falaram com os corpos, os suores, os gemidos...as palavras ficaram tão pequenas diante de tudo que se calaram.

- Olá a a a...

Chamou mais uma vez. Talvez ela não tivesse escutado, exausta da caminhada, da noite...

- Mas por que foi embora assim?

Talvez agora fosse a vez dele atravessar as montanhas para ir ao encontro dela. E já vislumbrava a sua silhueta na soleira da porta, olhar ao longe, esperando a sua chegada.

Reencontraria ali, nas horas mortas, o desvario dela, o corpo em chamas, alma flutuando, boca aberta, seios para os dentes, ventre pedindo, ar que vem do fundo da existência.

- Olá a a a...

Mas e se ela não estivesse lá?

Desceu da pedra. Entrou em seu casebre. Olhou o quarto. O cheiro dela estava impregnado lá. Vestiu a roupa que encontrou na frente. Acendeu o fogão, pegou um cigarro que estava abandonado em um canto.  

-Hoje preciso cortar mais lenha.

Não iria atrás de respostas.

As incertezas eram mais suportáveis que a confirmação do abandono.

 

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 15h34
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]