Predestinada
PREDESTINADA Têm graça alguns quereres que acompanham o ser humano. Ela menina, franzina, calada, medrosa. Filha de pai caminhoneiro e mãe professora. Cresceu predestinada à profissão da mãe, sonhando com a do pai. Nas tristezas, já adulta, olhos secos, voz calada, não escrevia dores, só olhava largo as estradas, desejosa. Sonhava a cabine forrada de veludo vermelho, um bico enorme pendurado no retrovisor, sozinha, rádio ligado, carroceria carregada, sol nascendo apontando uma estrada que vai para qualquer lugar. O destino importando pouco a cada partida, porque o querer principal é sempre estar a caminho. Pensava nas cidades atravessadas pela estrada: crianças brincando próximo ao asfalto, adultos de chinelos, mulheres nas janelas. Todos observando, com inveja ou pena, aquele mundo incerto, daqueles que estão sempre de passagem, sem fixar nada. Imaginava o passar dos colegas de estrada, mão na buzina, olhar rápido e avante: que a vida é curta e a estrada é longa... Vez ou outra, olhando no espelho retrovisor, deparava satisfeita com o rosto suado, um sorriso tatuado, deixando escapar de lado um palito mastigado. Nessas horas ria dos seus medos percebendo: Tristeza nenhuma vai tão longe, não dá conta de acompanhar a velocidade do caminhão. Mas de repente, numa bifurcação, estancou indecisa entre um caminho velho, conhecido e a estrada nova que se abria. Titubeava entre o previsível e o desejável obscuro, uma buzina impaciente em sua traseira fez com que se deixasse levar pelo caminho que a escolhia. Foi apenas um piscar de olhos e o outro caminhão, sem dar seta, ultrapassou-a pela direita e seguiu corajosamente o desconhecido. Ficou em silêncio por alguns segundos, o som do rádio foi desaparecendo e tomou seu lugar um burburinho de crianças inquietas. Olhou à sua volta e percebeu a sala. Num espelho de bordas coloridas, pendurado em uma parede rosada, viu seu rosto. Trazia do volta o lábio flácido, o olho caído. Era o destino ao qual ela pertencia, queria ser dona dele, mas não era, ele sim, que a possuía desde o instante primeiro. Ensaiando um sorriso falso, no canto da boca, puxou a canção da formiguinha. De certo não era cigarra, era formiga. Formiga predestinada. Sonhava estradas, mas o único caminho que fazia, eram os 3 km que separavam sua casa da escola. Ia a pé, seguindo todos os dias aquele mesmo trajeto. Nunca reclamava. Não se atrasava, nem ficava além do seu horário. Roupa sempre impecável, cabelos escovados, unhas limpas, aulas preparadas. Tudo exatamente como deveria ser. Buscava, nesse lugar predestinado, as certezas que jaziam deslembradas nas estradas... Mas faltou coragem, faltou força, faltou carteira de motorista... Adélia Carvalho
Escrito por Adélia Carvalho às 22h37
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