Engraçado
ENGRAÇADO Eu quero escrever uma coisa alegre, divertida, leve, mas não me vem nada à cabeça. Tento lembrar algo engraçado, mas o que me vem a memória são frases de Fernando Pessoa, Goethe, Dostoiévski, Kafka, Rimbaud...não vão ajudar...ficam gozando da minha vontade de escrever algo divertido. Empurro esses livros para o fundo da estante... MERDA! Não sobra muita coisa para olhar. Viro a cadeira de costas para a estante, de frente para uma parede branca. Preciso pensar, sem me deixar contaminar por esses malditos... Vamos lá, uma frase apenas e tudo ficará mais divertido! Não consigo lembrar nem de piadas, nem aquelas de “joãozinho” que contam na escola. A parede branca não está ajudando. Pelo contrário. Tem uma bolinha preta manchada em um dos cantos e meus olhos parecem puxados para ela, como um buraco negro me sugando...isso é engraçado??? Ah, não...não mesmo. Preciso continuar tentando... Da minha janela ouço uma moça cantando: “Pode ir embora que eu arranjo outrooooooooo...” Ela canta alto e mal, bate palmas completamente fora do ritmo e no final da frase dá um risinho escandaloso... e repete tudo de novo. Da primeira vez que ouvi eu ri, agora já estou irritada e queria que ela parasse, mas acho que vai durar essa tortura... Tortura não combina com alegria, então preciso pensar em outra coisa para falar. Eu já fui uma companhia divertida. Hoje não sei mais: falo de menos, penso demais e, vez ou outra, deixo aflorarem uns espinhos que deixam os outros sem vontade de se aproximar. Tento fazer a coisa certa, mas, na maioria das vezes, isso não é nada divertido. Penso gargalhadas, risos bobos e inteligentes, com ou sem motivo, tento alcança-los mas tudo que encontro é um sorriso amarelo numa cara pálida. Engraçado como a graça nos escapa alguns dias e fica zombando da nossa busca desesperada por ela. Deixa estar. Qualquer hora ela volta por si, explode dentro da gente e escapa pelos olhos, pela boca, pelos poros, completamente sem motivo, sem sentido, sem razão. Nessas horas, ri às gargalhadas da nossa nostalgia pelas tristezas bonitas que deixamos descansando em algum recanto, aguardando o retorno das suas horas. Adélia Carvalho
Escrito por Adélia Carvalho às 17h16
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