Ontem eu morri
ONTEM EU MORRI Ontem eu morri… Mas não se preocupem, isso vem acontecendo comigo, repetidamente, desde os 3 anos de idade, quando encostada a um parapeito, num dos corredores do meu primeiro colégio, tomei consciência dessa que sou. Aos 3 anos era como se, pela primeira vez, eu povoasse aquele corpo que me era tão estranho, como se a partir daquele instante eu percebesse minha existência, me tornasse eu mesma. O que aconteceu ate então, não me lembro, como se tudo tivesse sido suplantado pela minha primeira morte e recomeçasse ali uma nova existência. Assim, desde então, fui morrendo sucessivamente, uma vida pontuada de mortes que me tornavam insuportavelmente mais consciente. Como cascas, camadas retiradas uma a uma com a função de deixar mais exposta aquela que eu realmente sou. Depois de cada uma dessas mortes você sente que nada mais pode ser retirado de você, que pode controlar tudo ao seu redor, até o momento em que outra morte acontece e você percebe que tinha mais a ser tomado, se debate por um breve instante e depois se aquieta na fragilidade do que lhe resta. Depois de cada morte eu me carrego, um fardo pesado ainda, e me sinto exausta das mentiras que antes contava com facilidade, com preguiça das horas vazias e, finalmente, me enterro na compreensão das coisas que tentava esconder de mim mesma, num cotidiano abarrotado de fazeres compulsivos. Fisicamente não há dores na hora, só dias depois quando o desequilíbrio causado por aquela morte, faz-se refletir no estomago, bexiga, ventre, rins, intestino... Algumas dessas mortes eu percebo no exato momento em que ocorrem, outras ficam me acompanhando, dias a fio, sussurrando avisos que ignoro por inocência ou conveniência. Ontem eu morri... Mas não se preocupem, ainda terei muitas outras mortes antes daquele, da qual serão vocês os responsáveis por extrair a última camada. Adélia Carvalho
Escrito por Adélia Carvalho às 14h05
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