Numa desobediência informal começaram (isso já há alguns dias) lançar sobre minha tela palavrões dos mais abusados, incompatíveis com a minha polidez.
Por um tempo, continuei tentando escrever, na expectativa de vencê-los pelo cansaço, mas, os atrevimentos persistiram e começaram a se agravar.
Meus dedos tentavam digitar algo de grande seriedade e, automaticamente, lá estavam eles estampados na enorme tela, como que me desafiando. Palavrões do mais baixo escalão, alguns totalmente desconhecidos, outros, reconheço, já utilizados por mim, uma ou duas vezes, em situações de grande necessidade.
Analisei a hipótese de deixar de lado a máquina cheia de vontades e voltar às canetas e folhas, mas, também essas, certamente despeitadas do abandono de tantos anos poderiam fazer ainda pior para me agredir.
Temendo todos os meios, resolvi guardar só na cabeça as palavras, ali, não poderiam ser modificadas sem minha vontade.
Mas, depois de alguns dias, as palavras foram entupindo minha cabeça, sentia-a completamente lotada, sem espaço para um respiro, nem para um alfinete de palavra; estancou minha respiração, minha circulação, causou um bolor indigesto no meu estômago, sentia-me prestes a explodir, uma vontade forte de vomitar que, de repente, transformou-se em uma torrente de palavrões estrondosos,dos mais baixos, horrendos e vergonhosos, alguns, confesso,nem sabia conhecer.
Aliviou-me tudo depois da saraivada de palavras feias, aliviou estômago, garganta, cabeça, aliviou-me o ânimo em voltar a persistir com o teclado e, que surpresa agradável, meu computador voltou, desde então, a obedecer as minhas vontades.
Começou a ensaiar os primeiros passinhos aos onze meses de idade, mas, de um desequilíbrio a outro foi ao chão; espatifou-se como um saco de leite e derramou-se de medos.
Só voltou a caminhar meses depois: trôpega, insegura e desequilibrada.
Guardou do primeiro tombo, marca nenhuma nos joelhos, nem nas pernas alongadas, mas, ficou o medo ‘tomboso’ da vida.
Qualquer passo vacilante era motivo para empacar, mais que meses, anos a fio. Empacou nas coisas que mais a encantavam, nas vontades mais desejadas; teve medo do desequilíbrio no amor, da insegurança no trabalho e das incertezas nos afazeres banais.
Admirava-se com a coragem dos que a rodeavam, invejava passos firmes e desejosos da caminhada.
Olhava aquelas pernas seguras, comparava às suas e pareciam tão iguais; mas, de alguma forma, compreendia: iguais apenas quando estavam paradas, tão logo empreendiam uma nova caminhada, a diferença era tão nítida que não deixava dúvidas. Nunca seriam iguais.
Herdou do passado 'tomboso' as pernas bambas de medo, acomodou-se nelas e não sabia mais, como abdicar daquele fardo.
-Só mais 15 minutos – pensou enquanto enrolava entre os dedos a alça da bolsa comprida de tricô.
Se por um lado queria que o tempo voasse, por outro, preferia a ignorância de não saber.
Um enjôo forte insistia em fazer o caminho contrário da natureza e deixava na boca, um gosto amargo, lembrando que não conseguira comer nada até àquela hora.
Lembrava o pai e sua irritação natural. Era completamente impossível que ele compreendesse. Certamente perguntaria: - De quem? – E talvez ela não pudesse responder.
As pernas tremiam quando um pensamente correu pela sua cabeça: - Menino ou menina? – Sobressaltou-se. Como se aquela pergunta, pudesse fazer com que o pior acontecesse.
A gritaria das tias soou alta, vinda das lembranças de outros momentos. O olhar triste da mãe decepcionada e tantas coisas que ficariam pelo caminho sem terminar.
Sentia-se sozinha e, ao mesmo tempo, acompanhada; mas a companhia, talvez, tivesse chegado cedo demais e não sabia se a queria ali.
Sentia-se, antecipadamente, incompreendida, injustiçada, desamparada. Faria 18 anos dali a alguns dias, mas nem de longe isso parecia sero mais importante.
Definitivamente faria tudo sozinha. Mas e se não conseguisse?
Ia ligar para as amigas. Desistiu. Ninguém mais poderia ajudá-la. Só o relógio que não deixava passar aqueles 15 minutos de desespero.
Nada era definitivo. Podia ter, podia tirar, podia perder ou, na melhor das hipóteses,podia ter sido tudo um susto bobo.
Uma palavra dobrada no papel dentro do plástico, podendo desdobrar-se em tantos acontecimentos:
Fraldas, conversa com os pais, choro, cochichos das tias, hospital, medo, parto, ironias, aborto, arrependimentos, dor, faculdade trancada, mentiras e um rosto lindo de bebê nos seus braços.
A última imagem provocou-lhe um sorriso inesperado.
‘Desimportou-se’ com a irritação do pai, a intolerância das tias e a decepção da mãe.
Assustou-se mais com esse pensamento do que com a atendente que lhe fazia o sinal de que o resultado estava pronto. Não conseguia respirar. Caminhou até o balcão com medo, de repente, aqueles minutos pareciam ter voado. O enjoou virou-se em forte fincada na barriga, sentiu que algo grosso lhe escorria entre as pernas. Não precisava desdobrar mais aquele papel.
Sentiu-se aliviada e virou-se.
Vazia.
Sozinha.
Ouviu o silêncio do choro.
Sentiu o vazio dos braços.
E tudo que queria ali, naquela hora, era uma companhia, mesmo que indesejada.
Tenho uma amiga em véspera de casamento; entenda-se por isso, a um ano e meio do seu grande momento, o que hoje em dia é em cima da hora. Falar com ela, de agora em diante, é discutir igreja, local para recepção, vestido, buffet, damas e tudo mais que envolvem esses tais preparativos. “Não existe vida, na véspera do casamento” – concluí. Deve ser essa uma solução eficaz para evitar os ‘desmanchamentos’ de véspera.
Conversas sobre casamento, me fazem lembrar uma história que descobri, só há pouco tempo e que me deixou intrigada. Sabia que um dia escreveria sobre ela, mas deixei no forninho esperando uma hora que se mostrasse mais propícia.
O fato é que vim, a saber, tardiamente, que a famosa“Marcha Nupcial” do compositor Mendelssohn, tocada tradicionalmente durante os casamentos foi composta para a peça de Shakespeare, “Sonho de uma Noite de Verão”, em 1842. Isso seria uma mera curiosidade se os detalhes não fossem tão pitorescos.
Não bastasse que a peça é uma comédia a questão principal é a cena para qual foi composta. A “Marcha Nupcial” era tocada numa passagem divertidíssima do casamento entre Titânia e um artesão transmutado em “asno”.
Resumindo aqui, para os que desconhecem a peça e as personagens: nessa cena: Oberon (rei dos elfos) por ciúmes ordena a Puck que esprema nos olhos de Titânia (rainha das fadas) adormecida, o nectar de uma flor que fará que se apaixone pela primeira pessoa (ou coisa) que veja na sua frente. Para completar a vingança, ele transforma um tolo artesão em um asno e, ao acordar, Titânia avista-o e se apaixona perdidamente. O asno, além da ignorância age, ainda, como um grotesco galanteador das fadinhas que, sob as ordens da rainha, o servem, fazendo-lhe todos os mimos e vontades. Dá uma enorme pena ver a rainha em situação tão humilhante e tão cega ante o seu par romântico.
É claro que hoje em dia não consigo assistir a um casamento, sem pensar, quando a noiva adentra a igreja ao som de Mendelssohn: “Será que há por trás daquele noivo galante um grotesco asno?” Vejo a noiva caminhando em direção ao altar, encantada, enfeitiçada, como a bela titânia, precedida de tantas madrinhas,que como as ‘fadinhas’,quem sabe um dia serão galanteadas pelo ‘asno’?
Claro que, felizmente, nem todos os noivos serão ‘asnos’ (nem de longe é o que prentendo dizer), haverão príncipes montados em cavalos brancos, sapos que ao se apaixonarem tranformarão-se em príncipes e até lindos Shreks que de tão apaixonados, salvarão suas Fionas de qualquer fria, mas, de toda forma, é bom ficar atenta e tomar cuidado com o noivo que escolhe, porque, talvez, enquanto você caminha para o altar vendo à sua frente o homem perfeito, o que Mendelssohn te avisa é que pode estar ali um asno, de grandes orelhas, cérebro menor que um grão de feijão e que ainda flerta com todas as “fadinhas” que te rodeiam. E nesse caso, pode ser que o Oberon não chegue a tempo para desmanchar o feitiço e te salvar.
"Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras... O mais baixo na escala do trabalho..."
Merda? Merda é eu ter que ligar minha TV e ver a cara de um sujeito desses tentando se retratar publicamente no primeiro dia do ano, dizendo:
"Ontem, durante o intervalo do 'Jornal da Band', em um vazamento de áudio, eu disse uma frase infeliz, que ofendeu os garis. Por isso, quero pedir profundas desculpas aos garis e aos telespectadores do 'Jornal da Band'."
Agora eu pergunto: Esse arrependimento é real? Sincero?
Coisa nenhuma.A única sinceridade que existe aí é a de que ele se arrepende, não pela ofensa, mas, certamente, pelos microfones estarem ligados, ele se arrepende de arranhar sua imagem pública e teme prejudicar a audiência do canal. No mais não há arrependimentos.
Gente como o Bóris não acha que os indivíduos sejam diferentes: eles têm certeza!
Claro que não vamos isolar o Bóris, infelizmente, um grupo enorme o acompanha e se diverte diariamente com esse tipo de piada, um grupo que evoluiu nos mais diversos aspectos: social, cultural, científica, política e financeira e, por isso, julga-se melhor e mais digno de credibilidade que todos aqueles que “ficaram para trás”.
Julgar-se superior torna a pessoa mais segura? É o que parece na maioria das vezes. Muita gente, para sobressair só conhece um caminho: rebaixar o outro.
Um sujeito que nunca tirou o lixo da sua própria casa, certamente, não sabe o que é passar dias e noites com aquele cheiro do lixo dos outros impregnado, não só nas roupas, mas no corpo inteiro, exalando pelos poros. Eu não sei o que é isso. Mas penso que não é uma escolha, nenhuma criança na escolinha, nas aulas de profissão diz:
- Quando eu crescer quero ser gari!
Mas nem sempre a vida nos dá opções e, às vezes, essa surge como uma grande oportunidade para construirmos uma vida digna e dar aos nossos filhos melhores oportunidades. É um trabalho honesto. Nunca é vergonha trabalhar.
E é isso que todos deveriam ensinar aos seus filhos, é isso que o Bóris deveria ter aprendido, algum dia, para não se dar o direito de dizer em rede pública um absurdo daquele. A dignidade está no trabalho e não no tipo de profissão, porque precisamos dos garis, como precisamos dos médicos, dos apresentadores de jornal, dos taxistas, das professoras, dos padeiros, dos caminhoneiros, dos dentistas, das empregadas domésticas e todos mais. Precisamos de todos esses profissionais, então, deveríamos parar um pouco, aproveitar que é início de ano e as pessoas estão mais dispostas a mudanças e pensar duas vezes antes de fazer piada com o que é importante para todos, com o que faz parte do que somos.
Eu quero apagar da minha memória as risadas e a frase estúpida do importante bóris casoy, o mais rápido possível, e quero lembrar durante todo o ano o sorriso sincero e a esperança nos olhos dos GARIS ao me desejar Feliz Ano Novo. Do alto de suas vassouras eles sabem o que é a vida e o que é desejar, a cada ano, que ela seja melhor. Eu compartilho dessa expectativa.
Eu ergo todas as vassouras da minha casa e do alto delas afirmo: Eu quero guardar o que vale a pena e varrer o que é, verdadeiramente, um lixo.
Algumas garrafas de vinho, muitas risadas e boas histórias. Tem jeito melhor de passar a ressaca de Natal?
Acompanhada de amigos, virei a madrugada do dia 27 de dezembro em meio a histórias, ora divertidas, ora sérias; alegres pelo vinho ou, simplesmente, pelas companhias.
Há certa altura da madrugada, um dos amigos resolveu contar uma história e ela, desde então, não quis deixar minha memória em paz. Várias horas do dia me peguei lembrando-a, grudou na minha alma. Não vou dar conta de contar aqui, da mesma forma como ouvi, recheada dos mais diversos pormenores, mas, vou recontando do meu jeito, preenchendo as lacunas com os passarinhos que eu mesma recriei:
Noite de Natal, lá foi ele, vestido de Papai Noel, para uma festa solidária destinada aos moradores de rua. Eis que, entre uma atração e outra, uma mulher aproxima-se de uma das organizadoras e pede:
“- Eu queria falar uma poesia!”
A organizadora, sem pensar muito, atarefada para cumprir as atividades e o horário, mas, ao mesmo tempo, sem querer contrariar a mulher, responde:
“- Depois, está bem? Vamos fazer assim: ano que vem você fala sua poesia.”
Ano que vem?
O Papai Noel, incrédulo com a cena, saiu atrás da moradora que já se afastava e pediu:
“- Vem cá, fala para mim, eu quero ouvir sua poesia agora, fala para mim, fala!”
Ano que vem?
Ano que vem é longe demais para quem vive nessas condições, não é?
E para a poesia, então? É longe demais, porque tem efêmero sentido, só dura enquanto a memória permite e a memória só permite enquanto significa algo, enquanto atinge a sensibilidade.
Ainda bem que aquele Papai Noel estava lá para, ao menos um pouquinho, realizar aquele desejo de Natal. Ainda bem.
Ainda bem que aquela poesia foi dita para alguém enquanto estava preenchida de significado.
“-E a poesia era linda – ele dizia –valia a pena ser ouvida!”
E o meu amigo Papai Noel contou aquilo emocionado, perdido entre o riso da lembrança do absurdo daquela situação e a emoção de ter feito, de alguma forma, que aquela poesia fosse dita. Todo tempo repetia nas mais diversas entonações e alturas:
“- Ano que vem?”
E nós repetíamos, achando graça da situação e da performance do amigo, sem perceber, de verdade, naquela hora, o quanto aquela história marcaria a nossa sensibilidade.
Ainda bem que você estava lá Papai Noel.
Ainda bem!
E ainda tem gente que não acredita em Papai Noel: Eu acredito.
Sábado de manhã, sol quente, ponto lotado. Fiquei parada observando os carros e desejando que algo me chamasse mais atenção, que o taxista de camisa amarela, parado no sinal, distraidamente, com um dedo enfiado no nariz.
Um ônibus, que não era o meu, parou, transbordando de gente. Pensei: “Tomara desçam uns 10, pelo menos.” Qual o que? Desceu apenas uma mulher, salto alto (ALTO MESMO!) vestido estampado, franzido, com aquelas mangas que escorrem entre o casual e o intencional. Desceu no passeio e, meus olhos deram uma rápida olhada prevendo o percurso que ela enfrentaria; observei o passeio quebrado, esburacado, desnivelado, com pequenos montes de areia e pedrinhas, em um ou outro ponto. Um pensamento maldoso rondou minha cabeça desocupada e resolvi assistir á caminhada da moça. Pensei: “Vai ‘trupicar’, cair do salto, vamos ver como reage ao vexame” Mas a moça desceu ‘posuda’, a cada área acidentada ela parecia empinar mais, flutuava sob aquelas pernas alongadas entre o salto e vestido curto. Venceu, não só o passeio, mas, a rua movimentada, aproveitando o intervalo entre um e outro carro, atravessou a pista de caminhada, até alcançar o outro lado. Não caiu, nem ao menos falseou o pé uma única vez. Fui acompanhando-a, num misto de inveja e admiração, até que sumiu na virada da esquina perto da farmácia. Achei CHIQUE a ‘baranga’, coisa mais elegante aquela caminhada. Pensei: “Melhor que muita ‘madama’ que parece de ‘caganeira’, se equilibrando, com seus passos miúdos e inseguros, sobre uma salto que caminha em direção ao carro importado.
Abria uma garrafa de água, como fazia todos os dias após o almoço, girou distraidamente a tampa com a mão esquerda e sentiu que algo lhe cortara. Olhou a garrafa e percebeu uma beira de plástico, mal cortada, formando uma lâmina afiada; finalmente, lembrando de olhar a palma da mão percebeu um corte longo e quase profundo. Deu pouca importância ao ocorrido e voltou ao trabalho.
A noite, já na cama, recordou-se do ocorrido ao esbarrar na palma recém ferida, o livro que lia de má vontade. Pousou, então, o livro sobre as pernas e a mão sobre o livro e ficou observando: o corte atravessava a linha de sua vida, criando uma espécie de atalho, desvio ou algo parecido. Abrira uma nova possibilidade, um novo caminho com aquele corte inesperado, doera um pouco sim, mas, em pouco tempo restariam apenas cicatrizes.
Achou graça desse pensamento e dormiu embalada por aquela novidade.
Devagar, moço. Não passa correndo para satisfazer suas vontades, enquanto a menina atravessa distraída a rua, indo em busca das suas ilusões.
É preciso silêncio, moço. Não pode deixar a música da sua vida tocar tão alto. Isso ensurdece a menina e ela precisa de silêncio para achar o ritmo que embala os seus sonhos.
Olha! Mas olha de verdade, moço. Não pode olhar só assim, através da menina, porque seus olhos desconstroem o que ela já aprendeu ser, e de medo, ela fica achando que, na verdade, nem existe o brilho que ela vê através do espelho.
Ei moço, não diz para a menina o que ela deve fazer, mesmo se ela perguntar, porque, na verdade, o que ela quer é que a deixem descobrir sozinha.
Não finge sentimentos pela menina, moço, porque ela percebe isso, mesmo sem saber, e uma hora pode achar que todos os sentimentos são assim e não acreditar em mais nada.
Ei moço, só mais uma coisinha: não faz de conta que a menina não existe, porque uma hora ela vai ter certeza disso e pode realmente se perder da vida.