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BLOG ADÉLIA CARVALHO
 


A ÚLTIMA VIAGEM

A ÚLTIMA VIAGEM

 

Passou a mão no boné roto e já aliado do formato da sua cabeça e olhou com olhos vagos de quem já não olhava mais ali, mas ansiava pela nova viagem. Avistava além uma viagem repleta de novas possibilidades. Carecia de seguir caminho sem receios da nova estrada.

Pegou entre as mãos, todas as mãos dos que até então lhe acompanhavam pela estrada, olhou olhos que pediam para ficar mais um pouco.

Ouviu muito, falou pouco:

- Eu vou só, mais adiante a gente se bifurca como as estradas.

Viajara já, muitas estradas em companhia de si mesmo, sabia seguir sem medo, traçar as rotas, controlar a velocidade.

E sabia que cada adeus aponta novas possibilidades.

Não carregava nunca grande bagagem, só o bastante para remexer no bolso da camisa e conhecidos chiados para sintonizar nas rádios de alguma estrada. No banco ao lado a vara de pesca, o molinete e outros apetrechos indispensáveis: pararia certamente em algum ponto do caminho para pescar as saudades dos rios que se distanciaram. E reencontraria mais adiante bons amigos que há muito não via e regaria com essa alegria as novas saudades que plantara em si.

Prendendo a respiração, arrancou macio, mas com precisão. O caminhão seguiu bonito, a buzina gritando o adeus daquela última viagem.

Os que ficavam acenavam: braços agitados ao ar, olhos marejados, peito arfando, na esperança de serem vistos pelos retrovisores. E quanto mais o caminhão se afastava, mais apertava a saudade, o ranger da carroceria bamba, dos pneus cantando, da buzina fanha tornava-se menos audível. Faltavam palavras para cobrir aquele silêncio profundo.

Mas na boléia, dirigindo, mão firme no volante ele seguia alegre, rindo e chorando, relembrando histórias vividas, lidas e ouvidas, tudo naquele momento se misturava. Seguia só, mas firme, como sempre firmara o pé na marcha em toda estrada.

Muitas coisas deixara de dizer, sabia disso, mas, sabia que deixara silêncios transbordantes de palavras: A dor é a experiência mais solitária que há. Os outros podem pouco: Podem cuidar, estar perto, tentar remediar, mas, aquela dor, só quem sente é capaz de conhecer a intensidade.

É isso: A dor é a experiência mais solitária que há! E às vezes é preciso novas estradas para que as dores sejam despejadas.

Todos sabiam disso?

Sabiam...

Ou descobririam aos poucos, pela caminhada...

Agora sim! Olhou adiante e avistou o céu das horas mortas, do cair de uma tarde ensolarada. Sorriu sem perceber, não só com os lábios, mas com os olhos pequeninos que brilhavam e se arregalavam num sorriso transbordante. Percebeu meio sem perceber que a aflição cessara.

Não doeria mais.

 

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 20h35
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TECNOLOGIA IMPRESSIONANTE



Escrito por Adélia Carvalho às 15h56
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Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves

Caro Ziraldo,
Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. "Que foi?" "Desastre na Central." Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).
Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".
Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças"que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois:"Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".
Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.
Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como "o Lamarca do nanquim". Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como "o subversivo da caneta Pilot", houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".
No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.
O que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar aCartilha de Direitos Humanosencomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.
A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumoucom as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, aausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).

(continua na postagem seguinte)



Escrito por Adélia Carvalho às 00h38
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Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves (parte 2)


Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.
Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.
Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa". Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.
Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, comoAna Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz:"Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais."É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.
Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos". Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".
Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,
Ana Maria Gonçalves - Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.

Fascinante história de uma africana idosa, cega e à beira da morte, que viaja da África para o Brasil em busca do filho perdido há décadas. Ao longo da travessia, ela vai contando sua vida, marcada por mortes, estupros, violência e escravidão. Inserido em um contexto histórico importante na formação do povo brasileiro e narrado de uma maneira original e pungente, na qual os fatos históricos estão imersos no cotidiano e na vida dos personagens, 'Defeitos de cor' , de Ana Maria Gonçalves, é um romance histórico.

http://www.afrodescendente.com.br



Escrito por Adélia Carvalho às 00h35
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O PERIGO DA HISTÓRIA ÚNICA

Nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas.

A escritora Chimamanda Adichie conta a história de como ela encontrou

sua autêntica voz cultural - e adverte-nos que se ouvimos somente

uma única história sobre uma outra pessoa ou país,

corremos o risco de gerar grandes mal-entendidos.

OBS: A legenda se recusou a entrar aqui no blog...kkkk...

então aí vai o Vídeo com legenda no link:

http://www.ted.com/talks/lang/por_pt/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html 



Escrito por Adélia Carvalho às 12h25
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A COR DA ALMA

A COR DA ALMA

 O negro olhou a branca disfarçando seu interesse:

- Quanto pela roupa lavada e passada?

Era barato.

 A branca voltara a morar em casa da mãe quando enviuvou. Precisava sustentar a casa. O marido e os dois filhos morreram vitimados por violento surto de febre tifóide. Sofrera uma dor esquisita, desconhecida para alguém tão jovem. Casara-se aos 13 anos, e agora, ainda tão jovem, perdera mais do que havia ganhado da vida.

O negro respeitoso escondia no bolso das calças sujas um dinheiro a mais, além do cobrado pela trouxa.

A moça tentava devolver, ele se negava a receber.  

Era um agrado que lhe fazia.

Na entrega da roupa, vez ou outra, estendiam o papo:

- Você foi prá guerra?

- Quase. Cheguei a entrar no navio, mas aí avisaram que a revolução havia acabado. Voltei.

- E agora?

- Agora eu queria me casar.

A moça estremeceu. Casamento lembrava-lhe marido e filhos morrendo sem que pudesse fazer nada.

- Casa não? Perder a família é ruim demais.

E entrou casa adentro com a trouxa sob os braços e uma lágrima sob as pálpebras.

A mãe pegou-a pelo caminho.

- D. Maria, D Maria dê-se ao respeito. A senhora é uma viúva.

Era viúva e ao mesmo tempo era ainda menina. Em meio aos medos, o cortejo acariciava-lhe a alma.

- Casa comigo?

-Caso.

Entrou eufórica.

- Vai casar com o “preto”, Maria? Vai jogar pinche na sua alma?

- Vou.

- É absurdo!

- É amor, mãe!

E a viúva-menina tanto teimou e brigou que casou.

A família rugia de preconceitos tantos, mas com o tempo foram acostumando, surpreendendo-se com a doçura e grandeza do homem. Admitiram:

- É um “preto” de alma “branca”.

Era a sentença que entendiam como elogio.

E a casa foi enchendo-se de meninos: pequenos “pretinhos” adoráveis. Coloriram a vida e a alma da branca apaixonada.

- Alma tem cor Bitão?

- Sei não. De onde tirou essa pergunta, Maria?

- Sei lá. Estive pensando: se tiver e puder escolher quero a minha preta, ta?

- Tá bom. Vai ser a minha branca de alma pretinha!


Adélia Carvalho

 



Escrito por Adélia Carvalho às 21h55
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Estreia Hoje - NOSSA CIDADE de Thornton Wilder



Escrito por Adélia Carvalho às 10h54
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SEÇÃO: CARTAS PARA PERSONAGENS

 

CARTA PARA JULIETA

(Personagem da peça: Romeu e Julieta)

 Longe de Verona, 21 de agosto de 2010

 Julieta,

 é tão estranho que o sentimento mais cobiçado por todo ser humano, seja, desde sempre, o causador das maiores dores e lástimas.

Sofre-se por amor.

Morre-se por amor.

Chora-se por amor.

Tudo isso, ainda, muito mais, que as alegrias tão esperadas.

Quem sorri hoje por amor, já derramou lágrimas incontáveis por esse mesmo sentimento e já desejou, desacreditado dele, não amar nem mais um segundo.

Você, Julieta, sabia exatamente o que era o amor, quando, corajosamente, tomou o elixir do sono da morte, para aguardar a volta do seu amado. E sozinha, isolada do mundo, dos seus familiares e de um casamento indesejado, deixou-se deitar no túmulo para aguardar o grande reencontro.

O que se segue depois disso, são dissabores do que não controlamos, é o que foge às nossas escolhas, são os desígnios de um tal destino.

Mas o que me inquieta, foge à ordem dos acontecimentos que te vitimaram.

Mesmo se esse destino tivesse feito do encontro de vocês uma realidade, quanto tempo duraria esse amor, Julieta? Seria eterno, como quando impossibilidade?

Não existem garantias no amor e essa é a grande lástima desse caminho. Entrega-se tudo que possui, com a possibilidade de perda total, sem ressarcimento, sem pagamento pelo prejuízo.

O outro não pode nos garantir nada.

Nós não podemos garantir nada.

Se o amor acaba, não existe culpado, mas, existe a dor insuportável do que desencontra um par para direcionar o vulcão que agita dentro de si.

Aquele que deixou de amar, não decidiu deixar de amar, aconteceu.

Aquele que deixou de ser amado, não tem culpa de continuar amando, não tem como opção esquecer.

Ambos são vítimas das surpresas que o amor aplica, a todo tempo.  

Por isso causa medo o amor, Julieta, por sua inconstância e imprevisibilidade.

Amar e ser amado é só o ponto de partida para um percurso desconhecido. O amor é, declaradamente, mais perigoso quando se torna possível, porque é, a partir daí, que ele poderá conduzir-nos à salvação ou a perdição.

Mas é preciso saber que se caminha sozinho. É bom ter ali o amparo da mão do outro e deve-se aproveita-lo ao máximo, mas, isso é mais uma possibilidade do que uma certeza.

Se o amor resolver partir, ele irá. Então, só restará você e o caminho.

Nem todos terão a chance de sucumbir pelas fatalidades que tornarão o seu amor eterno como o que você viveu, Julieta.

Muitas vezes, o amor diz adeus, sem avisos, sem nem mesmo se despedir.

E muitos terão a triste certeza de que aquele adeus foi o último, antes mesmo de descobrir se o canto, do lado de fora da sua janela, era de um rouxinol ou de uma cotovia.

Com amor,

Adélia Carvalho

 

 



Escrito por Adélia Carvalho às 14h13
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A HISTÓRIA

A HISTÓRIA

 Anos atrás fizeram um trato:

- A gente se encontra e escreve junto essa história.

Cumpriram o acordo:        

- Você escreve uma página, depois escrevo uma e assim vai; a última escrevemos meio a meio.

Escreveram o quanto davam conta, a vida metia-se a escrever uns entremeios de acasos.

- Você sabe que a história tem que acabar, não sabe?

Sabiam.

Mas não tinham para ela um final que satisfizesse a ambos.

17 foram as páginas da história. Não encontraram para ela o fim ideal, então, deixaram que acabasse como a vida, sem ponto final, sem certezas, sem adeus...

 

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 12h04
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O SONHO

O SONHO

 Acordou. Olhos remelentos de fixar sonhos, vontades babadas no travesseiro, preguiça morna grudada nos lençóis.

Ia levantar. Não desgrudava.

Ficou relembrando o sonho  com voz rouca e sem coerência:

- Sabe um sossego, uma paz, uma vontade de querer simplesmente ficar.

-Sei.

- Sonhei com um lugar assim. Queria ficar ali, conversando atoíces, ouvindo histórias, reinventando casos...

- E que lugar era esse?

- Sei lá. Só sei que me deixou com uma sensação esquisitamente boa...

-Eu estava lá?

- Acho que estava para chegar...

- Ah, é?

- É, pra gente fazer daquele nada, alguma coisa...

- Isso é a felicidade, meu amado!

Era mesmo.

Levantou-se.

Estava agora preparado para o “acordado”.

 Adélia Carvalho

 



Escrito por Adélia Carvalho às 09h05
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MIRIM

MIRIM

 - Mirim, dá a mão, me atravessa aqui.

A menina num extremo da ponte, tremia. Braços estendidos, olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, vestido roto.

O irmão, do outro lado, ria arreganhado. Pés descalços, calça no meio da canela, sem camisa.

- Vou para casa, vai ficar?

Ameaçou e sorriu maldoso virando as costas enquanto a menina soluçava assustada.

Ele altivo pelo pequeno poder que lhe atribuía a coragem.

Ela encolhida, lutando com seus medos, suas ‘descoragens’.

Fechou os olhos, trancou as mãos e pisou pequenino até o outro lado da ponte. A madeira rangendo, os joelhos estalando, dentes cerrados, aprumando coragens.

Pisou aliviada a terra úmida que sinalizava o alcance do outro lado e prestes a abrir os olhos, surpreendeu-se com a chuva de terra em seus olhos, boca e nariz.

Assustou.

Mirim riu cruel:

- Viu bobona, conseguiu!

E correu satisfeito com a coragem da menina.

Ela esfregou os olhos, baixou e catou um tanto de terra que cabia nas mãos pequenas.

Gritou:

- Vai comer terra!

E correu atrás do irmão, brava, exultante, vingativa e grata.

 Adélia Carvalho

 



Escrito por Adélia Carvalho às 21h37
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SEÇÃO: DIVULGAÇÃO : FLICTS - Peça Bis - Teatro Alterosa



Escrito por Adélia Carvalho às 09h41
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SEÇÃO: DIVULGAÇÃO - A CASA DE LÁ

A CASA DE LÁ

29 de julho à 1º de agosto no Galpão Cine Horto

 

 

 

O espetáculo A Casa de Lá conta a estória de um casal desde a infância até a velhice. Um casal como qualquer outro – com suas tristezas e alegrias, suas partidas e chegadas. Inspirado na obra de Guimarães Rosa e fruto de um trabalho de pesquisa desenvolvido no Vale do Jequitinhonha (MG), o espetáculo – que reúne o Teatro Diadokai, o grupo Girau e o ator Cristiano Peixoto e já foi apresentado em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo – está de volta à cena mineira para uma temporada no Galpão Cine Horto, de 29 de julho à 1º de agosto. 

Idéia original :: Cristiano Peixoto

Direção :: Ricardo Gomes

Dramaturgia :: Ricardo Gomes e Cristiano Peixoto (livremente inspirada na obra de João Guimarães Rosa e nas histórias orais dos moradores do Vale do Jequitinhonha, em especial Josefa Alves dos Reis (Dona Zefa) e Antônio Luis de Matos (Mestre Antônio).

Elenco :: Amanda Prates, Cristiano Peixoto e Priscilla Duarte

Direção musical e Trilha sonora original :: Amanda Prates

Músicos :: Grupo Girau - Gabriela da Costa e Daniel Guedes

Figurino ::Priscilla Duarte

Cenário :: Bruna Christófaro

Teatro de sombras :: criação - Paulinho Polika e Thaís Moreira / Manipulação ::  Bárbara Henriques e Natali Bentley

Iluminação :: Felipe Cosse

Assistente de Iluminação :: Tainá Rosa

Coordenação de produção :: Regina Célia

Produção executiva :: Gabriela da Costa

Luthier :: Antonio Moreira

Cenotécnicos :: Antonio Moreira e Joaquim Agostinho

Costureira :: Maria Guiomar da Silva

Projeto gráfico :: Otávio Santiago

Filmagem :: Mauricio Resende

Fotografia :: Naty Torres

Administração :: Silvia Batista

 

 

 

 

 



Escrito por Adélia Carvalho às 22h24
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O HOMEM DOS PÁSSAROS

O HOMEM DOS PÁSSAROS

 O som que saía de seus lábios imitava com perfeição o canto dos pássaros que o rodeavam.

Sentou-se na beira de um banco, abriu o saco de alpistes que, ora jogava ao chão, ora deixava na palma da mão aguardando, pacientemente, os pássaros que se aproximavam sem receio.

O velho pousado sobre o banco, como os pássaros, parecia capaz de levantar vôo a qualquer instante.

Em algum lugar estariam suas asas.

Tive medo de me mover e espanta-lo do pouso reconfortante.

Fiquei ali, atenta, presa por longo tempo, observando-o centímetro por centímetro e sendo invadida por uma certeza:

- Ia voar, tinha pés-asas, mãos-asas, lábios-asas, orelhas-asas, mas os olhos...

Quando meus olhos encontraram aqueles olhos cor de folha, olhos que entardeciam com o escurecer da tarde, olhos que iam dos pássaros ao chão, todo tempo, e que só por um breve instante pousaram sobre os meus, compreendi.

Meus olhos encontraram um vazio que parecia dizer:

- Quando não damos conta das nossas asas, é preciso reaprender a andar...

Tive então a certeza:

- Não voaria.

Não mais.

Trazia para si o vôo que o encantava, mas, definitivamente, aquele pássaro havia pousado de vez, em meio aos alpistes da vida, em palmas de mãos que se ofereceram para acariciá-lo.

Sentia-se cansado demais.

Certamente voara, pela última vez, num lindo entardecer, que agora carregava em sua memória e traduzia pelo constante clarear e escurecer dos olhos que se recusaram a pousar.

O velho parou o assovio rouco, guardou no bolso o saco vazio de alpistes e  levantou-se.

Os pássaros debandaram.

Olhou-os com os olhos já escuros e caminhou.

Devagar.

Reaprendendo a andar.

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 16h59
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DESPEDIDA

DESPEDIDA

 

- Me deixa entrar em você, uma última vez, para me despedir.

 

Dizendo isso ele deitou-se sobre ela e segurou seu rosto, olhando no fundo dos seus olhos.

O corpo dela, surpreendido pela despedida inesperada, retesou-se inteiro, ao invés de relaxar, fechou-se angustiado, mas ele, indiferente àquela dolorida sensação, aproveitou-se da compressão da vagina em seu pênis e meteu-se dentro dela com fúria e gozo enlouquecido.

Exausto, deixou-se cair no travesseiro ao lado, completamente satisfeito e em paz com suas necessidades.

Sorriu.

Fechou os olhos para um cochilo merecido.

Ela levantou-se lenta e dolorida, catou pelo chão as roupas espalhadas, entrou no banheiro, sem fazer barulhos, sentindo a dor do corpo invadido e do gozo retesado.

Olhou no espelho e deparou-se, por detrás dos cabelos desgrenhados, com  um rosto marcado por pequenas rugas, escondendo os traços  ainda de menina.

Chorou.

Sem lágrimas.

Sem soluções.

Olhou nas mãos a roupa que o seu homem arrancara de seu corpo, tantas vezes, e que agora ela vestiria sozinha, sempre.

Saiu do banheiro em busca da bolsa na cabeceira da cama.

O homem, corpo nu  largado sobre a cama, sentiu o movimento da mulher e virou-se para ela :

- Dorme aqui. Está quase amanhecendo. Amanhã cedo a gente toma um café e...

Sorriu malicioso.

Ela seguiu em direção a porta, sem responder, olhou uma última vez para o homem amado, o homem que, sem piedade, despedira-se só de sua vagina, mas, não dela.

Abriu delicadamente a porta, traduziu em pensamento as palavras que a receberam naquela noite:

- Me deixa entrar em seu corpo e sair do seu coração.

 Deixou...

...e saiu.

 

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 17h35
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