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BLOG ADÉLIA CARVALHO
 


TEM MUITA BARANGA MAIS CHIQUE QUE “MADAMA”

TEM MUITA BARANGA MAIS CHIQUE QUE “MADAMA”

 

 

            Ponto de ônibus é lugar bom de catar histórias.

            Sábado de manhã, sol quente, ponto lotado. Fiquei parada observando os carros e desejando que algo me chamasse mais atenção,  que o taxista de camisa amarela, parado no sinal, distraidamente, com um dedo enfiado no nariz.

Um ônibus, que não era o meu, parou, transbordando de gente. Pensei: “Tomara desçam uns 10, pelo menos.” Qual o que? Desceu apenas uma mulher, salto alto (ALTO MESMO!) vestido estampado, franzido, com aquelas mangas que escorrem entre o casual e o intencional.  Desceu no passeio e, meus olhos deram uma rápida olhada prevendo o percurso que ela enfrentaria; observei o passeio quebrado, esburacado, desnivelado, com pequenos montes de área e pedrinhas, em um ou outro ponto. Um pensamento maldoso rondou minha cabeça desocupada e resolvi assistir a caminhada da moça. Pensei: “Vai ‘trupicar’, cair do salto, vamos ver como reage ao vexame” Mas a moça desceu ‘posuda’, a cada área acidentada ela parecia empinar mais, flutuava sob aquelas pernas alongadas entre o salto e vestido curto. Venceu, não só o  passeio, mas, a rua movimentada, aproveitando o intervalo entre um e outro carro, atravessou a pista de caminhada, até alcançar o outro lado.  Não caiu, nem ao menos falseou o pé uma única vez.  Fui acompanhando-a, num misto de inveja e admiração, até que sumiu na virada da esquina perto da farmácia. Achei CHIQUE a ‘baranga’, coisa mais elegante aquela caminhada. Pensei: “Melhor que muita ‘madama’ que parece de ‘caganeira’, se equilibrando, com seus passos miúdos e inseguros, sob uma salto que caminha em direção ao carro importado.     

 

Adélia Carvalho

 



Escrito por Adélia Carvalho às 12h19
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LINHA DA VIDA

LINHA DA VIDA

           

Abria uma garrafa de água, como fazia todos os dias após o almoço, girou distraidamente a tampa com a mão esquerda e sentiu que algo lhe cortara. Olhou a garrafa e percebeu uma beira de plástico, mal cortada, formando uma lâmina afiada; finalmente, lembrando de olhar a palma da mão percebeu um corte longo e quase profundo. Deu pouca importância ao ocorrido e voltou ao trabalho.

A noite, já na cama, recordou-se do ocorrido ao esbarrar na palma recém ferida, o livro que lia de má vontade. Pousou, então, o livro sobre as pernas e a mão sobre o livro e ficou observando: o corte atravessava a linha de sua vida, criando uma espécie de atalho, desvio ou algo parecido. Abrira uma nova possibilidade, um novo caminho com aquele corte inesperado, doera um pouco sim, mas, em pouco tempo restariam apenas cicatrizes.

Achou graça desse pensamento e dormiu embalada por aquela novidade.

 

Adélia Carvalho

 



Escrito por Adélia Carvalho às 21h42
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D1AR1O

D1AR1O

 

Meu diário não tem chaves. O seu tem?

Nem senhas. O seu tem?

O que eu guardo nele são falsidades. Mentiras que não contei. Medos que não senti. Tremores do frio que não fez. Tesão que imitei.

Esse diário não sou eu. É só um pedaço de histórias inventadas que roubei para mim.

Guardo nele o banho de vinho que me deu.

A aliança que colocou nos meus dedos.

O encontro que devia acabar em beijo.

Os passeios de mãos dadas que fizemos.

Mas nenhum desses guardados é meu. E são todos tão disformes e sem medidas que podem fazer parte do ‘dia’ de qualquer um.

Até são bonitas as histórias desse diário. Encantam tanto que dá vontade de viver algumas páginas todos os dias.

Mas em dias como hoje eu penso: esse diário já está todo escrito. Não deixa espaço para eu viver nem uma linha só minha.

Em dias assim eu quero mesmo é soltar ao vento as folhas todas desse diário e escrever uma história toda novinha.

 

Adélia Carvalho

 



Escrito por Adélia Carvalho às 20h53
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FLICTS

FLICTS

O grupo teatral ENCENA apresenta: "FLICTS" da obra de Ziraldo

Direção: Wilson Oliveira

Produção: Mazarelo Teixeira

Cenário e Figurino: Mauro Gelmini

Elenco: Adélia Carvalho, Cristiane Andrade, Daniel Carfa, José Pintor, Leonardo Fernandes e Marcus Duarte.

Local: Teatro Dom Silvério

Data: 26 de setembro a 18 de outubro - Sábados e domingos às 17:00

 



Escrito por Adélia Carvalho às 22h53
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Ei Moço!

Ei Moço!

 

Ei moço, cuidado com o sonho da menina!

Devagar, moço. Não passa correndo para satisfazer suas vontades, enquanto a menina atravessa distraída a rua, indo em busca das suas ilusões.

É preciso silêncio, moço. Não pode deixar a música da sua vida tocar tão alto. Isso ensurdece a menina e ela precisa de silêncio para achar o ritmo que embala os seus sonhos.

Olha! Mas olha de verdade, moço. Não pode olhar só assim, através da menina, porque seus olhos desconstroem o que ela já aprendeu ser, e de medo, ela fica achando que, na verdade, nem existe o brilho que ela vê através do espelho.

Ei moço, não diz para a menina o que ela deve fazer, mesmo se ela perguntar, porque, na verdade, o que ela quer é que a deixem descobrir sozinha.

Não finge sentimentos pela menina, moço, porque ela percebe isso, mesmo sem saber, e uma hora pode achar que todos os sentimentos são assim e não acreditar em mais nada.

Ei moço, só mais uma coisinha: não faz de conta que a menina não existe, porque uma hora ela vai ter certeza disso e pode realmente se perder da vida.

 

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 00h27
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A QUEM INTERESSAR POSSA...

A QUEM INTERESSAR POSSA...

 

Perder é coisa que mais acontece, a cada dia e, mesmo assim, ensinam que é ruim e as pessoas vão se perdendo, querendo evitar as perdas que são inseparáveis da condição de viver.

Porque perdas não são controláveis, elas não nos pertencem, nós é que pertencemos a elas.

É só olhar em volta e nos deparamos com perdas, todo momento, nossas e dos outros. Alguns sabem perder, perdem com elegância; outros fingem que não percebem; e outros, ainda, ficam se lamentando como se fosse algo realmente extraordinário. E não encontram ninguém para lhes dizer que na verdade não é.

A cada segundo alguém perde algo, é como respirar, piscar os olhos, engolir a saliva. É algo que vai acontecer, quer você aceite, quer não, quer perceba, quer não...

Ops...

Perdeu...

Perdeu seu lugar no ventre da mãe;

Perdeu seu posto de filha caçula;

Perdeu roupas que não serviam mais;

Perdeu o final de um filme adorável;

Perdeu sapatos que quebraram o salto;

Perdeu lápis, canetas (nossa, quantas!);

Perdeu namorados para outras meninas;

Perdeu amores que não te escolheram;

Perdeu flores que nem ganhou;

Perdeu luares que não olhou;

Perdeu viagens que não fez;

Perdeu os filhos que não fez e escorreram vermelhos das suas entranhas;

Perdeu seu anel de 15 anos;

Perdeu o gosto que tinha em mascar chicletes, ou chupar balas de manhã bem cedo;

Perdeu textos que não escreveu;

Perdeu livros que não leu;

Perdeu hora de compromissos importantes;

Perdeu lágrimas por mil motivos ou por  motivo nenhum;

Perdeu amigos inesquecíveis;

Perdeu mergulhos que devia ter dado;

Perdeu o medo de ficar sozinha;

Perdeu a ansiedade pelas respostas;

Perdeu palavras que devia ter calado,

Perdeu silêncios que devia ter quebrado;

Perdeu coisas que ouviu sem ouvir de verdade;

Perdeu de aprender tanta coisa que hoje faz falta;

Perdeu tempo tentando entender o que não se explica;

Perdeu de buscar, de encontrar, de querer...

Mas dizem que perder é mudar vontades, mudar o ser, mudar-se...

Eu sigo hora duvidando, hora acreditando...

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério”.

 

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 20h36
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Uma homenagem

Uma homenagem ao meu amigo ator, diretor e professor admirável,
com quem aprendi da sala de aula ao palco,
da vida à encenação,
entre sonhos e realizações.
Feliz aniversário, Walmir querido.
"O Ator e Seu Ofício"

"Quando um ator pára o ato teatral nada fica. A não ser a memória de quem o viu. E mesmo essa memória tem vida curta.É a perseverança da verdadeira vocação que vai definir o jogo verdadeiro do jogo mentiroso.O oposto do jogo mentiroso é o ofício da loucura criativa, da responsabilidade, do experimento, da consequência, da sensualidade, do humor.Nosso ofício é lento, muito lento, desgastante, fugidio.A percepção do espaço teatral só se desvenda depois de um longo noviciado. Apanha-se todo dia. É uma profissão de absoluta solidão, onde “outro” é fundamental. Buscar o outro.Confundir-se com o outro. Somar com o outro.Somar com o outro num corpo só. Formando um só organismo, uma só respiração.Penso que o nosso ofício não tem a condenação bíblica do trabalho. O suor do nosso rosto não é um castigo. Nosso ofício é a nossa festa.Há uma famosa frase de que não há nada pior para uma revolução do que um revolucionário mal preparado. Esse preparo tem que ser orgânico, sem divisões ou subdivisões.Sejam totalmente dedicados, mas não confinados. Repito: Busquem a individualidade, não o individualismo."

Fernanda Montenegro


Escrito por Adélia Carvalho às 21h09
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O SOCORRO PRECISA CHEGAR

O SOCORRO PRECISA CHEGAR

 

Alguns fatos me chocam muito e não consigo arrancá-los de meu pensamento.

Hoje soube de uma história assim em Mariana, cidade onde nasci e cresci; cidade que faz parte da minha alma: Um jovem de 16 anos, largado pela namorada, por vingança, atirou no braço da moça às 11 horas de um dia e no mesmo dia às 23:30 atirou e matou um rapaz (também de 16 anos) que suspeitava estar namorando sua ex.

O rapaz atingido voltava da escola e estava a caminho de casa,  ficou caído no chão, chamaram o SAMU e alguém correu na casa do pai, que chegou antes do socorro, a tempo de ouvir o filho implorar:

- Liga para o SAMU pai, eu não quero morrer...

- Já ligamos...

- Liga de novo, eu não quero morrer...

Ligaram, mas o socorro não chegou a tempo. O rapaz sangrou até a morte.  

Acharam que era trote.

Duas questões me atormentam a alma:

1 – Por que ele atirou na ex-namorada pela manhã e ainda estava solto e armado à noite para  cometer esse assassinato brutal?

2 – Por que o socorro (de emergência), numa cidade tão pequena, não chegou a tempo???

Essa revolta não cabe em mim, me extrapola. Ela cresce ainda mais quando penso naquele diálogo do filho com o pai. E quando penso: “Meu Deus do Céu, ele morreu! Ele não queria morrer, implorou por isso, mas morreu...” penso no pai que ouviu essa súplica, na família recebendo a notícia e não consigo aceitar.

É um problema público que atinge toda a cidade, é uma falha clara em duas instâncias de primeira necessidade: Segurança e Saúde.

Não é possível que um criminoso (ou alguém desequilibrado) tenha tempo de cometer duas agressões em espaço de tempo tão grande, sem que alguma atitude seja tomada e, por outro lado, não é possível que o socorro seja solicitado e que esse pedido tenha que ser repetido muitas vezes, para que eles tenham certeza de que não é um trote.

Se o rapaz tivesse sido preso após o tiro na ex-namorada, o outro ainda estaria vivo, indo e voltando para a aula, soltando pipas, vivendo...

Se o socorro tivesse atendido a primeira chamada, maiores as chances do jovem ter sobrevivido, estancado o sangue do ferimento e as dores da família.

São só suposições, eu não tenho certezas, ninguém as tem. Pode ser que com o funcionamento perfeito desses setores, mesmo assim, uma desgraça o tivesse abatido, mas, ao menos assim, todos se sentiriam mais acolhidos. As dores não seriam menores, mas a certeza de que tudo que poderia ser feito, foi, daria outro nome para a revolta que se instala em nosso coração.

É preciso gritar por essa ajuda, antes seja tarde demais para ela compreender que precisa escutar.

O socorro precisa chegar.

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 00h57
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Santa Clara Clareai

Santa Clara Clareai

Ao Mau Tempo Afastai

Santa Clara Clareai

 

Sentia uma dor lancinante. Uma dor que se fazia maior e mais barulhenta a cada instante, como uma chuva que começa branda e vira-se em tempestade.

Santa Clara clareai...

Não tinha respostas e os trovões gritavam dentro de si.

Ao mau tempo afastai...

Saber é custoso demais.

Santa Clara, clareai
Estes ares...

Queria de volta o sossego que perdera com a desconfiança adquirida.

Dai-nos ventos regulares
de feição...

Sentia sua alma precipitar-se em direção ao abismo. Dúvidas. Tudo tão turbulento e frio.

Estes mares, estes ares
Clareai...

O olhar distante querendo alcançar a certeza perdida.
Santa Clara, dai-nos sol.
Mirava longe sem enxergar nada. O perto já havia se esvaído na dor. Não restava nada. Perdera-se em trevas.

Alumiai
Meus olhos na cerração...

Lágrimas grossas escorriam em seu rosto, como as gotas na vidraça embaçada. Percebeu-se só, como nunca. O outro era distante demais para o entendimento de quem mal se compreendia.
Estes montes e horizontes
Clareai...
sentia suas certezas quedarem sem força para resistir.

Santa Clara, no mau tempo
Sustentai...

Seus sonhos não voavam mais tão alto. Arrastavam-se desiludidos.
Nossas asas
Governai...

Tremia de febre e frio. O vento forte afastava tudo que construíra, todas as certezas dos outros que preenchiam seus vazios.  Tinha medo de saber o já sabido.
Afastai
Todo risco...
Medo de perder o que já não lhe pertencia.

Medo de ser descoberta assim, ensopada  pela chuva, despenteada pela vento, arrancada pelas raízes.

Santa Clara, todo risco
Dissipai...

Esperava sem sossego, mesmo sabendo que toda tempestade, mais hora, menos hora, vai embora. Algumas fazem mais estragos, outras menos, deixando sempre uma única certeza:

Santa Clara, clareai.

Ela volta.

 

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 20h01
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Procura-se um amor ativo

PROCURA-SE UM AMOR ATIVO

 

Publicou nos classificados  o seguinte anúncio:

 

 

 

“ PROCURA-SE UM AMOR ATIVO

Tive na vida dois grandes amores:

O primeiro lembrava de mim todos os dias.

O segundo pensava em mim todos os segundos da sua vida.

2 amores passivos: pensar, lembrar...

BASTA!

Quero um amor ativo como Orfeu, capaz de ir ao inferno buscar sua amada, mas incapaz de negar-lhe um olhar, mesmo que esse fosse a perdição de ambos.

Mas não temam. Eu careço bem menos. Para mim basta um amor que ligue, escreva, apareça. Alguém zeloso em me lembrar do seu amor, bastaria para me petrificar apaixonada.”

 

 

Anos depois ainda passava as manhãs lendo e relendo o anúncio.

Ninguém ligou.

Ninguém escreveu.

Ninguém apareceu.

O terceiro amor nunca chegara...

Mas ela tinha certeza de que seu procurado amor, em algum lugar, também lia e relia todos os dias o anúncio, pensava nela, lembrava suas palavras e saudoso do que ainda desconhecia esperava, apenas esperava, inerte na sua passividade...

 

Adélia Carvalho

 



Escrito por Adélia Carvalho às 17h58
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A MENINA INOCENTE

 

Chama-se ... tem, talvez, cinco anos. Seis?

Estava saudosa do pai hospitalizado cuidando de um câncer.

Tem ele, segundo os médicos, pouco tempo para continuar entre os viventes.

Preferiu, depois de conversar com a esposa e com os amigos, passar esse pouco tempo em casa, na companhia deles, em especial da filha.

Moram todos num povoado de 300 almas.

Chama-se Noiva do Cordeiro o povoado.

A menina ficou exultante com a volta do pai e contou para um visitante:

Meu pai chegou todo chic. De ambulância.”

E frisou bem a palavra ambulância.

Texto de Walmir José publicado no blog: http://walmir.carvalho.zip.net/

 

Me atrevi a copiar esse texto do "BLOG DO WALMIR. Indico também que leiam o texto anterior,  publicado por ele, sobre uma sociedade comunista no interior de Minas chamada "Noiva do Cordeiro": "VALE COMETE GROSSA INJUSTIÇA".  Mais que uma apelo contra uma injustiça, é uma história de amor inacreditavelmente real, para os descrentes de que o mundo tem salvação.

 



Escrito por Adélia Carvalho às 23h26
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Das Montanhas

DAS MONTANHAS

 

 

Dispunha as mãos em concha ao redor dos lábios entreabertos, provocava o movimento da laringe e o som escorria pelos ares:

- Olá a a a..............

A resposta vinha como um eco da montanha vizinha:

- Olá a a a ...

O dia havia começado.

Muitos anos viviam tão próximos e tão distantes. Cada qual protegido e  isolado em um espaço próprio. Quando queriam se comunicar, subiam em sua “pedra grande” frente ao casebre, no ponto mais alto da montanha em que moravam.

Eram extremamente necessários um ao outro, mas, com a distância defendiam-se do isolamento que a proximidade diária poderia impor um dia.

Não questionavam a situação. Decidiram:

- Vamos?

- Vamos.

Seguiram, então, cada um para a sua montanha e lá viviam desapropriados das obrigações cotidianas em relação ao outro.

Um dia, porém, o eco fez-se suspenso:

- Olá a a a ....

Até o vento parecia quietado para ouvir o silêncio.

- Olá a a a ...

Nunca, em todos aqueles anos, precisara chamar pela segunda vez:

- Olá a a a....

Ele poderia, simplesmente, estar dormindo um pouco mais, não e?

- Olá a a a....

Olhou a sua volta indecisa, desceu da pedra e voltou para dentro do casebre. Tentou em vão seguir com os afazeres diários. Lembrava o silêncio do eco e o vazio parecia entrar por todos os orifícios do seu corpo entupindo, sufocando, angustiando...

Sentou-se à beira da cama ainda morna e ficou olhando o silêncio.

- E se não respondesse nunca mais? - Esse pensamento causou-lhe calafrios.

- E se estivesse morto? – Essa idéia ocorreu-lhe num misto de desespero e contentamento: - Ao menos não teria deixado de responder...

Assustou-se com a leveza que essa idéia lhe provocava. Levantou-se, calçou sapatos fechados e seguiu em direção às respostas.

No caminho não pensava nada. Suava, arfava, debatia-se nas limitações do seu corpo.

Descera sua montanha e agora subiria a outra. Esse pensamento fez-lhe imaginar como seria o casebre dele, suas coisas, seus hábitos diários. Será que ainda a reconheceria?

Horas depois chegava aliviada e ofegante ao alto daquela montanha. As horas mortas ofuscavam-lhe a visão permitindo distinguir apenas um vulto recostado ao portal do casebre. Aproximou-se lentamente. Ele, que tinha o olhar distante, virou-se para ela sem sobressalto. Ela sem entender:

- Chamei, não escutou?

Ele balançou a cabeça afirmativamente olhando-a nos olhos. Ela ainda sem compreender.

Num repente abraçaram-se com carinho. E o carinho virou desejo, o desejo virou sexo.

Encontraram no corpo um do outro as respostas que lhes faltavam.

Fizeram muito, falaram pouco. Quase nada.

A noite passou. Durara menos que desejavam e mais do que suportavam.

Quando ele acordou, ela já não estava. Pulou da cama à janela avistando a pedra vazia. Não estava lá.

Correu até a pedra sem se vestir, o vento da manhã recém nascida cortava seu rosto,  dava-lhe arrepios.

- olá a a a...

Mantinha-se de pé. Ouvidos esticados para acolher a resposta.

- Onde ela poderia ter ido?Voltara à sua montanha, com certeza...

Lembrava todas as coisas que queria ter-lhe dito nesse encontro. Mas quando a viu o silêncio parecia mais poderoso que qualquer palavra. Falaram com os corpos, os suores, os gemidos...as palavras ficaram tão pequenas diante de tudo que se calaram.

- Olá a a a...

Chamou mais uma vez. Talvez ela não tivesse escutado, exausta da caminhada, da noite...

- Mas por que foi embora assim?

Talvez agora fosse a vez dele atravessar as montanhas para ir ao encontro dela. E já vislumbrava a sua silhueta na soleira da porta, olhar ao longe, esperando a sua chegada.

Reencontraria ali, nas horas mortas, o desvario dela, o corpo em chamas, alma flutuando, boca aberta, seios para os dentes, ventre pedindo, ar que vem do fundo da existência.

- Olá a a a...

Mas e se ela não estivesse lá?

Desceu da pedra. Entrou em seu casebre. Olhou o quarto. O cheiro dela estava impregnado lá. Vestiu a roupa que encontrou na frente. Acendeu o fogão, pegou um cigarro que estava abandonado em um canto.  

-Hoje preciso cortar mais lenha.

Não iria atrás de respostas.

As incertezas eram mais suportáveis que a confirmação do abandono.

 

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 15h34
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ERVA DANINHA EM IPATINGA,

NESTA SEMANA.

Centro Cultural USIMINAS
Ipatinga 20 de março - sexta-feira - 20:30 h



Escrito por Adélia Carvalho às 22h29
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Predestinada

PREDESTINADA

 

Têm graça alguns quereres que acompanham o ser humano.

Ela menina, franzina, calada, medrosa.

Filha de pai caminhoneiro e mãe professora.

Cresceu predestinada à profissão da mãe, sonhando com a do pai.

Nas tristezas, já adulta, olhos secos, voz calada, não escrevia dores, só olhava largo as estradas, desejosa.

Sonhava a cabine forrada de veludo vermelho, um bico enorme pendurado no retrovisor, sozinha, rádio ligado, carroceria carregada, sol nascendo apontando uma estrada que vai para qualquer lugar. O destino importando pouco a cada partida, porque o querer principal é sempre estar a caminho.

Pensava nas cidades atravessadas pela estrada: crianças brincando próximo ao asfalto, adultos de chinelos, mulheres nas janelas. Todos observando, com inveja ou pena, aquele mundo incerto, daqueles que estão sempre de passagem, sem fixar nada.

Imaginava o passar dos colegas de estrada, mão na buzina, olhar rápido e avante: que a vida é curta e a estrada é longa...

Vez ou outra, olhando no espelho retrovisor, deparava satisfeita com o rosto suado, um sorriso tatuado, deixando escapar de lado um palito mastigado. Nessas horas ria dos seus medos percebendo: Tristeza nenhuma vai tão longe, não dá conta de acompanhar a velocidade do caminhão.

Mas de repente, numa bifurcação, estancou indecisa entre um caminho velho, conhecido e a estrada nova que se abria. Titubeava entre o previsível e o desejável obscuro, uma buzina impaciente em sua traseira fez com que se deixasse levar pelo caminho que a escolhia.  Foi apenas um piscar de olhos e o outro caminhão, sem dar seta, ultrapassou-a pela direita e seguiu corajosamente o desconhecido. Ficou em silêncio por alguns segundos, o som do rádio foi desaparecendo e tomou seu lugar um burburinho de crianças inquietas. Olhou à sua volta e percebeu a sala. Num espelho de bordas coloridas, pendurado em uma parede rosada, viu seu rosto. Trazia do volta o lábio flácido, o olho caído. Era o destino ao qual ela pertencia, queria ser dona dele, mas não era, ele sim, que a possuía desde o instante primeiro. Ensaiando um sorriso falso, no canto da boca, puxou a canção da formiguinha.

De certo não era cigarra, era formiga. Formiga predestinada. Sonhava estradas, mas o único caminho que fazia, eram os 3 km que separavam sua casa da escola. Ia a pé, seguindo todos os dias aquele mesmo trajeto. Nunca reclamava. Não se atrasava, nem ficava além do seu horário. Roupa sempre impecável, cabelos escovados, unhas limpas, aulas preparadas. Tudo exatamente como deveria ser. Buscava, nesse lugar predestinado, as certezas que jaziam deslembradas nas estradas...

Mas faltou coragem, faltou força, faltou carteira de motorista...

 

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 22h37
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Engraçado

ENGRAÇADO

 

Eu quero escrever uma coisa alegre, divertida, leve, mas não me vem nada à cabeça. Tento lembrar algo engraçado, mas o que me vem a memória são frases de Fernando Pessoa, Goethe, Dostoiévski, Kafka, Rimbaud...não vão ajudar...ficam gozando da minha vontade de escrever algo divertido.

Empurro esses livros para o fundo da estante...

MERDA!

Não sobra muita coisa para olhar. Viro a cadeira de costas para a estante, de frente para uma parede branca. Preciso pensar, sem me deixar contaminar por esses malditos...

Vamos lá, uma frase apenas e tudo ficará mais divertido!

Não consigo lembrar nem de piadas, nem aquelas de “joãozinho” que contam na escola.

A parede branca não está ajudando. Pelo contrário. Tem uma bolinha preta manchada em um dos cantos e meus olhos parecem puxados para ela, como um buraco negro me sugando...isso é engraçado??? Ah, não...não mesmo.

Preciso continuar tentando...

Da minha janela ouço uma moça cantando: “Pode ir embora que eu arranjo outrooooooooo...” Ela canta alto e mal, bate palmas completamente fora do ritmo e no final da frase dá um risinho escandaloso... e repete tudo de novo. Da primeira vez que ouvi eu ri, agora já estou irritada e queria que ela parasse, mas acho que vai durar essa tortura...

Tortura não combina com alegria, então preciso pensar em outra coisa para falar.

Eu já fui uma companhia divertida. Hoje não sei mais: falo de menos, penso demais e, vez ou outra, deixo aflorarem uns espinhos que deixam os outros sem vontade de se aproximar. Tento fazer a coisa certa, mas, na maioria das vezes, isso não é nada divertido.

Penso gargalhadas, risos bobos e inteligentes, com ou sem motivo, tento alcança-los mas tudo que encontro é um sorriso amarelo numa cara pálida.

Engraçado como a graça nos escapa alguns dias e fica zombando da nossa busca desesperada por ela.

Deixa estar.

Qualquer hora ela volta por si, explode dentro da gente e escapa pelos olhos, pela boca, pelos poros, completamente sem motivo, sem sentido, sem razão. Nessas horas, ri às gargalhadas da nossa nostalgia pelas tristezas bonitas que deixamos descansando em algum recanto, aguardando o retorno das suas horas.

 

Adélia Carvalho



Escrito por Adélia Carvalho às 17h16
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